Medo de Prova

Esta história foi feita sob encomenda para as crianças do Fundamental I da escola O Pequeno Polegar. O objetivo era óbvio, diminuir, ou eliminar, o medo que as crianças sentiam da prova e que provocava em um dia agitado de aula sempre que tinha uma avaliação marcada. E em um resultado abaixo do esperado de alguns alunos, uma vez que o nervosismo prejudica a concentração, a atenção e até o resgate da memória.

Busquei criar uma identificação com aquelas crianças, através de pequenos detalhes (a cidade e/ou a casa não muito grande, nem muito pequena; a habilidade nos jogos eletrônicos; a amizade com o porteiro, já que o porteiro desta escola é um ótimo agente, que chama as crianças pelo nome e cumprimenta-as efusivamente). O resultado foi incrível. Desde que esta história foi contada as crianças me param no corredor da escola para contar que a pena as ajudou muito e teve até uma aluna que me deu um presente dizendo que além da nota super boa, até a letra dela, que era horrível, tinha ficado bonita por conta da magia. Mas que magia foi essa? Ei-la:

MEDO DE PROVA

Era um vez um menino. Ele morava em uma cidade nem muito grande e nem muito pequena. Em uma casa, nem muito grande e nem muito pequena.

Era um menino muito inteligente. Esperto mesmo. Ele sabia a letra de uma porção de músicas, era fera no computador e no vídeo-game, conhecia um monte de jogos e brincadeiras e ainda sabia uma série de histórias super legais.

Esse menino cresceu, e chegou a hora de ir pra escola, mas coco ele era mesmo muito esperto, tirou de letra. Quer dizer, no começo foi até um pouco difícil, quase assustador, mas logo ele pegou o jeito e fez um monte de amigos. A professora adorava ele e até o porteiro era seu amigo. Mas o menino continuou a crescer e chegou no segundo ano. E não é que a professora resolveu me aparecer com uma tal de prova! E ainda vem dizer que vale nota, que a nota vai pro boletim, que o pai e a mãe vão ver, e que se ficar com nota ruim, além de levar bronca e passar vergonha, ainda ia ficar de recuperação, e que, se tivesse muitas notas ruins, podia até perder o ano.

Vocês imaginam o estado que esse menino ficou, né?

Parecis até que um monte de formigas havia vindo morar na barriga do menino. Chegou em casa em um nervosismo que só quis saber de estudar. Estudou até cansar, e até café ele queria tomar pra aguentar estudar mais. Dá pra acreditar? Ainda bem que a mãe dele não deixou. Já pensou?

E quando chegou o dia da prova? Vocês conseguem imaginar o quanto aquele menino estava nervoso? Pois é, as formigas na sua barriga já haviam virado borboletas e tudo que o menino fazia era sentir vontade de ir ao banheiro o tempo todo: – “Profi”, posso ir ao banheiro? Pro, posso ir de novo? Só mais uma ver vai, eu tô muito apertado…

A professora quase ficou louca! E o pior: quando chegou a hora da prova deu um branco danado! O menino não conseguiu lembrar de nada do que ele havia estudado e nem do que a professora tinha ensinado. E olha que naquela aula ele até tinha prestado atenção.

E quando veio a nota? Que situação. Quando a mãe viu a prova sua cara virou uma máscara da mais pura decepção. O menino não tinha coragem nem de olhar pra cara azeda da mãe…

E pra piorar ainda mais a “coisa”. Pouco tempo depois a professora marcou outra prova. Dessa vez o menino já entrou em desespero de cara. Na sua barriga já ão havia nem formigas e nem borboletas, era só um nó apertado. Quando chegou em casa o menino se trancou no banheiro e não queria mais ir pra escola de jeito nenhum. Mas a mãe dele obrigou o menino a ir pra escola mesmo assim. Por sorte, antes da prova, veio um fim de semana e a família do menino marcou um encontro na casa de campo deles. A casa de campo deles fica perto do sítio onde eu moro, que é perto daquela chácara que vocês visitam todo ano, sabem? A chácara do Tio Miro, lá na Roça Velha? Pois é lá que eu moro, só que mais pro pé da serra, e a família do menino tem uma casa de campo bem ao lado da minha casinha. É um lugar lindo mesmo, tem campinho de futebol que dá pra por rede de vôlei, tem uma cesta de basquete, tem uma casinha na árvore onde a “primaiada” fez o um clubinho super legal, tem um laguinho pra nadar e neste lago tem até um barquinho pra remar quando tá frio. Enfim, é um lugar muito divertido, minhas filhas sempre vão lá brincar com eles.

Mas o menino não conseguia tirar a prova da cabeça e não queria saber de brincar de nada, os primos dele ficavam tentando chamá-lo para brincar de um tudo, mas ele nem queria saber, tanto que foi se esconder em um cantinho pra poder se chatear sozinho, afinal quando a gente está chateado não quer ficar mesmo perto de ninguém, né? Foi sentar atrás da cerca da horta, e tava lá, com a cabeça cheia de caraminholas, quebrando pequenos galhos e rasgando folhas, quando apareceu uma linda borboleta. Mas pensa em uma borboleta linda mesmo… ela era enorme, verde e rosa, e muito brilhante, era a borboleta mais linda que o menino já havia visto em toda a sua vida. Ele ficou admirando a beleza daquela borboleta e acabou se distraindo e desabafando:

– Ah borboleta! Tá todo mundo achando que eu sou burro, só que eu não sou, é só que chega na hora da prova e eu não consigo fazer direito, Não sei por que. Até minha mãe tá pensando que eu não sô mais inteligente, só que eu não sou burro, eu não sou. Eu queria tanto colocar na prova todo o conhecimento que tem na minha cachola… mas chega na hora e eu não consigo…

Foi aí que a borboleta começou a brilhar mais ainda, brilhou tanto que o menino teve até que olhar para o outro lado. E quando ele olhou de novo a borboleta tinha se transformado em uma belíssima fada, tão bonita e tão delicada. O menino tomou um susto tão grande que quase caiu para trás. Mas quando a fada Leta falou, sua voz soou tão suave e clara que o coração do menino se acalmou na mesma hora.

-Para o seu problema eu teu a solução: a pena mágica de um mágico gavião. Você ainda vai precisar estudar, e principalmente atenção nas aulas prestar, mas quanto ao nervosismo que a prova possa lhe dar, esta pena mágica irá te acalmar e te ajudará a recordar daquilo que precisar.

A fada Leta falou, brilhou, voltou a ser borboleta e voou, enquanto o menino só fazia agradecer.

Com a pena mágica no bolso o menino não precisou mais se preocupar. E o que foi que ele fez? Tratou de ir brincar, é claro, e brincou até se acabar. Subiu na árvore, jogou futebol com os primos, nadou com as primas e os primos, colheu frutas no pé para descansar e brincou mais até não se aguentar. Quando chegou a hora de voltar pra casa e o menino entrou no carro ele não dormiu, ele desmaiou e acordou só no dia seguinte, já na sua cama. E era o dia da prova mas, com a pena mágica no bolso o menino ficou todo prosa. Guardou a pena na mochila e foi para a escola na mais oura alegria. E não é que a pena deu certo mesmo.

O menino tirou um 10, mas um 10, tinha até um parabéns escrito, com uma letra bem linda, de viés. E quando sua mãe viu a prova ficou tão orgulhosa. Queria mostrar a prova para todo mundo, pra irmã, pra avó, pros primos, pra tia, pro gato, pro cachorro e pro papagaio. Todo mundo que entrava em casa minha mãe já ia logo exibindo:

– Olha a nota que o meu filho tirou. Não é mesmo um filhinho lindo e inteligente?

E passou mais um tempo e a professora marcou outra prova. Mas desta vez o menino nem se preocupou, estudou tranquilo, continuou a prestar atenção nas aulas, e quando chegou o dia da prova, foi pegar sua penano armário pra por na mochila e…. e… e… – Mãe!!! – gritou o menino, pois a pena não estava em lugar nenhum. O grito foi tão alto que sua mãe veio correndo pra ver o que havia acontecido. Mal entrou no quarto o menino já foi logo perguntando desesperado:

-Mãe! Você viu aquela pena que estava aqui no meu armário?

-Aquela pena velha de gavião? – respondeu sua mãe – Eu joguei fora, ué.

-Nãããoo!!! – o menino ficou completamente desesperado, se agarrou na porta do armário e não queria ir para a escola de jeito nenhum.

Mas não é que sua mãe o obrigou a ir pra escola de qualquer jeito porque ele não podia perder aula, ainda mais em dia de prova, e a mãe enfiou o menino no ônibus escolar arrastado Imaginem o estado que o menino foi para a escola obrigado e quando desceu do ônibus ele não andava, se arrastava. Tanto que a criançada foi entrando e ele ficando para trás, parecia que carregava um elefante nas costas, tinha até um nó na garganta de vontade de chorar. Mas quando ele estava passando pelo canteiro que tinha na frente da escola adivinhem quem estava lá escondida atrás de uma flor?

A fada Leta, só que disfarçada de borboleta, que ela não é doida de aparecer de fada no meio da cidade né.

 Pois a fada Leta voou bem pertinho do ouvido do menino e falou em um sussurro bem baixinho:

– Não precisa mais se preocupar não, A mágica da pena já está no seu coração. Você só precisa estudar e continuar a muita atenção prestar, mas não mais precisa se desesperar.

A fada leta falou e voou para longe, enquanto uma música ecoava dentro da cabeça do menino:

“Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.”

E o menino entrou na escola com essa música ecoando na cachola e se sentiu calmo e tranquilo, e fez a prova numa boa, tirando uma ótima nota.

E quando chegou o dia do seu aniversário, o menino teve uma ideia brilhante: convidou todos os seus amiguinhos e amiguinhas pra uma festa lá na casa de campo. Levou todos eles pra cerca atrás da horta e pediu pra fada leta dr uma pena mágica para cada um deles. Assim toda aquela turma passou a ir bem na prova, a professora não entendeu nada, e mais tarde todos eles se formaram médicos, engenheiros, professores, etc.

Quem gostou da história que eu aprendi com a fada Leta?

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Ao final da história a lamentação foi geral. Todos queriam uma pena mágica e eu lamentei muito não ter uma para dá-los e fingi estar mesmo muito triste, causando uma certa comoção geral. Após deixá-los na sala busquei o saco de penas mágicas e voltei contando que havia acabado de encontrar com a fada Leta, bem ali no canteiro de flores da escola e que, atendendo aos nossos pedidos ela havia me entregue um saco cheio de penas mágicas para distribuir.

A criançada ficou eufórica e eu diria que apenas umas 4 ou 5 crianças do quarto e do quinto ano não acreditaram na história, mas os outros estavam tão convictos que não conseguiram ser convencidos de que aquilo era apenas uma historinha….

1 comentário

  1. João Bello · abril 22, 2015

    Muito boa. Genial. Minha Fada.

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