A menina que perdeu o silêncio

Esta história foi criada por mim ano passado, para a escola O Pequeno Polegar, sob encomenda das professoras, que queriam uma história que focasse as crianças que falam toda hora… Está publicada desde então mas, na época, publiquei o rascunho, conforme ia criando e fiz todos os outros ajustes apenas no meu caderninho, que levo sempre comigo. Esse ano essa história foi solicitada novamente e só agora voltei aqui para uma revisão. E achei muitos erros… acho que devo ter criado correndo, ou com sono. Mas agora ela segue revisada e editada. Espero que tenha ficado boa, pois amanhã já vou levá-la para a escola Brincantes…

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A MENINA QUE PERDEU O SILÊNCIO

Era uma vez uma linda princesa, inteligente e até educada, mas que não sabia a hora de ficar calada, falava sempre na hora errada e deixava seus pais, o rei e a rainha, em maus bocados, passando vergonha na frente de súditos e convidados…

Um dia, seu pai saiu para lutar uma grande guerra deixando todos muito preocupados. Mas o rei era um grande guerreiro, venceu a guerra e ainda salvou a vida de um poderoso mago. O mago deu-lhe de presente um anel mágico, que realizava um desejo se fosse esfregado e assim o rei tinha um único pedido, mas podia pedir qualquer coisa que desejasse.

Como o Rei era muito sábio, levou o anel para casa e, antes de decidir o que pedir, resolveu primeiro consultar seus  amigos e conselheiros . Ouviu, principalmente, a opinião da Rainha e da sua linda filha, a princesinha. Adivinhem quem foi que deu mais sugestões? Isso mesmo, a princesinha tinha um milhão de ideias diferentes. E o Rei ouviu todas elas, pacientemente.

Depois de todos ouvir chegou a uma decisão. Tomou seu  anel mágico nas mãos, esfregou e começou:

– Eu quero…

– Papai! O senhor vai pedir um baú do tesouro que nunca fica vazio? – a princesa interrompeu.

-Não minha filha. Eu quero…

– Papai! O senhor vai pedir uma mesa que está sempre cheia das mais deliciosas comidas?

– Não minha filha. Eu quero…

– Papai! O senhor vai pedir um guarda roupa que dentro dele aparece a roupa que a gente imaginar?

-Não minha filha. Eu quero…

– Papai! O senhor vai…

-Minha filha, você não consegue ficar um segundo sem falar?

Não era o que o Rei queria, mas foi o que o anel entendeu. E a princesa desatou a falar sem parar um segundo sequer. Parecia que sua boca havia virado uma torneirinha de asneira de onde não parava de sair besteira. Nem mesmo tapando a boca ela conseguia parar de falar, era um desespero! Para ela que não podia parar nem mesmo para tomar ar, ou ir ao banheiro, e para quem precisa aguentar escutar a pobre princesinha falando sem parar o tempo inteiro. Todo o Reino ficou com dor de ouvido. O Rei chamou todos os médicos e curandeiros do reino para tentar curar sua filha e nada, ninguém conseguia fazer a princesinha ficar calada. Mandou seus arautos e conselheiros percorrerem o mundo inteiro atrás de médicos e curandeiros mas nenhum deles teve êxito. Saíram todos com dor de cabeça, mas ninguém conseguiu recuperar o silêncio da princesa. O Rei ofereceu uma grande recompensa para qualquer um que conseguisse encontrar o silêncio perdido, afinal já estavam todos com dor de ouvido. Muitos partiram em sua busca, mas ninguém conseguia encontrar, e a princesa tagarelando sem parar: – Blablablablablablá! – Ninguém mais conseguia aguentar.

Um dia apareceu um jovem destemido que à noites vinha sonhando o mesmo sonho, no qual ele e a princesa, juntos, conseguiam encontrar o castelo do silêncio perdido. O Rei, desesperado, autorizou a princesa a empreender tal jornada e lá foram os dois jovens em busca do castelo com o qual o cavaleiro sonhara. Viajaram um ano inteiro sem parar. Atravessaram florestas escuras e montanhas íngremes, desertos escaldantes e mares gelados. E por todo o caminho a princesa ia falando e o príncipe escutando:

-Olhá que árvore alta. Veja que flor cheirosa. Oh, que bela borboleta. Nossa que deserto quentem mas que floresta escura e fria… essa montanha não acaba mais? Não aguento mais andar. Vamos ter que atravessar este rio a nado, veja que lindos peixes! Ah, não aguento mais andar, agradeço por me aguentar, queria tanto chegar ao castelo e o meu silêncio encontrar para poder parar de falar…

O jovem cavalheiro já estava com as orelhas deste tamanho, já não aguentava mais, quando finalmente, no alto de uma grande montanha, encontraram um castelo igualzinho ao do sonho do rapaz.

– Oh! Veja! Finalmente! Só pode ser esse. Vou bater para encontrar meu silêncio. Ai! Que porta dura. E o pior é que não tem campainha, nem trinco e nem fechadura. Para que serve uma porta assim? Uma porta que não abre nem fecha é de uma inutilidade sem fim.

-Epa! Inútil não. Sou de grande serventia, mas se quiser me abrir tem que resolver meu enigma: O que é o que é que cai em pé e corre deitado?

– Ora dona porta me desculpe, não quis lhe ofender, mas o que cai em pé e corre deitado eu posso lhe responder: é a chuva. É ou não é? Queira me responder…

A porta se abriu e o jovem e a princesa puderam passar, ela sem parar de falar e ele a escutar. Entraram apenas para se deparar com uma nova porta, igualzinha a primeira.

-Ora essa, mais uma porta sem trinco nem fechadura? Vamos logo dona porta, pode me perguntar que seu enigma eu vou desvendar.

-O que é, o que é que tem coroa mas não é rei?

-Ora, essa é fácil demais, é o abacaxi! Abra logo! E agora? Meu silêncio está aqui?

A porta se abriu e a princesa passou falando sem parar, acompanhada do destemido cavalheiro que já não aguentava escutar, sua orelha já estava tão grande que a princesa, sem parar de falar, tinha que ajudá-lo a carregar. Entraram e deram de cara com mais uma porta igualzinha as outras duas.

-Assim também não dá mais. Isso não acaba jamais? Mande logo o enigma que eu vou desvendar mesmo sem parar de falar para poder pensar.

-O que é, o que é que tem cabeça mas não pensa, tem dente mas não morde?

-Essa é mais difícil, vocês precisam me ajudar, alguém aqui sabe o que tem cabeça mas não pensa, tem dente mas não morde? Já sei, é um tempero fedido que também serve pra espantar vampiro. Parece com a cebola, quem sabe dizer o que é? Isso mesmo, o alho.

A porta se abriu e os dois passaram e com mais uma porta se depararam.

-Mas agora já é demais, eu não aguento mais falar, isso nunca vai acabar?

-Você tem que me desvendar: O que é o que é que casa e casa o tempo  inteiro mas vai morrer solteiro?

– Essa está muito difícil, vocês podem me ajudar? Eu não consigo pensar direito sem parar de falar. O que é que casa, casa e está sempre solteiro

– Sabe princesa, eu espero que você consiga seu silêncio encontrar, pois quando a gente voltar, se você aceitar, quero te levar ao padre para ele nos casar…

-É isso, você acertou! A resposta é o padre. É ele quem casa todo mundo e está sempre solteiro.

E assim a porta se abriu e os dois jovens passaram e deram de cara com… uma sala completamente vazia, sem porta nem mobília.

– E agora – perguntou a princesa – o que a gente faz?

Os dois ficaram um tempo olhando a sala e tentando descobrir o que fazer até o jovem perceber:

– Veja princesa, você está calada, nós conseguimos, o seu silêncio perdido estava nessa sala!

E assim os dois puderam voltar e se casar. A princesa veio o caminho inteiro sem dizer uma palavra, e depois que se casaram ela dava muito valor para o silêncio. Cresceu e virou uma rainha muito sábia, que só falava o que precisava e, por isso mesmo, era sempre escutada.

FIM

 

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