O Compadre da Morte

Era uma vez um homem muito pobre que tinha uma esposa e seis filhos. Quando a esposa trouxe a notícia de que estava grávida do sétimo filho o pobre homem entrou em desespero… como ia conseguir arrumar um padrinho para mais um filho? Encontrar o padrinho para o sexto já havia sido um sufoco, e agora então. Ninguém queria ser compadre de um pé rapado como ele. Mas ainda sim o homem saiu em busca de alguém que aceitasse apadrinhar seu sétimo filho. Mas o tempo passava, a barriga da mulher aumentava e ninguém aceitava o convite do homem. O bebê nasceu, e nada. O homem saiu de casa desesperançado, mas determinado a não voltar enquanto não conseguisse um padrinho pro seu menino encontrar.

Andou um dia inteirinho e a noitinha já caía quando viu uma figura sinistra encapuzada escondida em um gueto. Sem ter nada a perder o homem resolveu convidar o estranho sinistro:

-Olá desconhecido, desculpe-me incomodá-lo, sou um pobre pé rapado procurando alguém que aceite meu filho caçula como afilhado.

-Você sabe com quem está falando? Seu pedido eu vou aceitar, mas antes vou lhe avisar: saiba que eu sou a Dona Morte. Se quiser voltar atrás do convite a hora é agora.

-Hora, mas a Morte seria uma ótima Madrinha, pois é uma pessoa justa. Leva ricos e pobres, jovens e velhos, não tem preconceito de cor, raça ou religião. Taí, você será a madrinha ideal.

Assim a morte aceitou o convite e já no dia seguinte a Dona Morte batizou o menino. Depois da celebração a morte chamou seu compadre de canto:

-Sabe compadre, quero dar um presente de batismo para o meu afilhado.

-Mas que é que é isso comadre, não tem precisão não.

– Mas eu faço questão. Nunca ninguém me tratou com tanta gentileza, e por isso vou presentear meu afilhado dando ao seu pai fama e riqueza.

– Se a Senhora tem certeza eu não vou recusar que é indelicadeza.

– Pois faça o seguinte, coloque uma placa na porta da sua humilde casa onde se diga Dr. Médico.

– Mas “cumadre”, eu não tenho estudo, não sei da arte de curar.

-E nem vai precisar. De hoje em diante o senhor será capaz de me ver. Mas apenas você. Quando alguém lhe chamar você vai até o leito e vai olhar. Se eu estiver sentado na cabeceira da cama, pode dizer que o paciente vai se salvar e dê a ele água com açúcar que rapidinho ele vai curar, mas se eu estiver ao pé da cama, pode dizer que não há o que fazer, o doente vai morrer.

Passado um tempo, um homem rico desesperado para ver seu filho curado já havia chamado médicos de tudo quanto é lado. Ficou sabendo do novo médico que havia aparecido e que morava em um barraco, mandou chamá-lo. Quando o Cumpadre chegou, deu de cara com a morte na cabeceira da cama, serviu pro doente um copo de água com uma folha amarga e disse que a doença já estava curada. E no outro dia o doente já se levantou milagrosamente curado.

Desse dia em diante sua fama começou a crescer e como ele nunca errava, se dizia que ia morrer morria, se dizia que ia curar curava, logo o Dr foi ficando rico enquanto sua fama se espalhava.

Mas eis que um dia a “cumadre” morte bateu na porta da sua casa, pra lhe convidar para uma visita em sua casa. O “cumpadre” foi, depois da morte lhe prometer que ia deixá-lo voltar vivo para casa. Na mansão da Dona Morte o homem viu um montoarada de vela acesa, vela de todos os tamanhos, algumas ainda bem grandes, outras só um toquinho com uma chama flamejante.

-Essas velas – disse a D. Morte – são as vidas das pessoas. As velas grandes são as de quem ainda tem muito para viver, as velas apagando são as de quem já está para morrer. E eu te trouxe aqui meu cumpadre para te mostrar que a sua vela está terminando de derreter.

– Mas como é que é “cumadre”, quer dizer que eu vou morrer? Mas logo eu que te tratei tão bem, fez de você minha “cumadre”, agora que tenho dinheiro não vou ter tempo de viver? Dê-me apenas um ano mais, em nome da forma como eu tratei “voismicê”.

-Pois então pode ser cumpadre, mais um ano eu vou te dar, daqui a exatamente um ano eu volto para te buscar.

E assim o homem aproveitou o tempo que lhe restava para viajar com a família e conhecer novos lugares.

Seis meses depois eles passaram por um reino distante que estava acometido de uma profunda tristeza, sua única princesa estava muito enferma. O rei, sabendo da chegada do Médico à cidade mandou chamá-lo, mas quando o homem chegou no leito da princesa viu a Morte prostrada ao pé da cama, a princesa ia morrer. Mas ela era tão jovem e tão bela que o homem se apiedou e resolveu, pela primeira vez, desafiar a sua comadre. Ficou lá parado sem nada dizer esperando até a D. Morte adormecer e então, rapidamente, virou a cama ao contrário, deixando o pé na cabeça e a cabeça no pé e gritou:

-Viva viva, a princesa vai viver!

A Morte acordou no susto e vendo que na cabeceira da cama estava prostrada acabou deixando a princesa viva e saindo indignada.

Mas no dia seguinte apareceu para buscar o seu compadre:

-Você me levou a princesa, terá agora que ir no lugar dela.

– Mas um ano ainda não passou.

– Mas nosso trato você quebrou salvando a alma que era minha e agora não adianta chorar, você virá no seu lugar.

– A “cumadre” deixe-me ao menos rezar um Pai Nosso antes de morrer?

-Um Pai Nosso? Tá bom, pode ser.

-Mas você promete “cumadre” que vai me deixar a reza terminar antes de me levar?

-Mas é claro “cumpadre”, pode se ajoelhar.

E o homem se ajoelhou e começou:

-Pai Nosso que estás no céu.

E se calou.

-Vamos logo com isso “cumpadre” que a minha lista hoje está cumprida, tenho mais o que fazer.

-Ih “cumadre”, então é melhor “voismicê” ir andando que eu ainda vou levar muitos anos pro meu pai nosso terminar…

E assim a Morte foi novamente enganada e foi embora prometendo que um dia ainda ia conseguir lhe pegar. E o Dr. viveu muitos anos, viu seus netos e bisnetos se criar, até que um dia já bem velhinho encontrou um velho morimbundo na beira da estrada. Tentou salvá-lo, mas não conseguiu, o velho morreu em seus braços, largado e sozinho neste mundão. O Dr se comoveu de não ter ninguém para encomendar a alma do pobre velho. Resolveu ele mesmo fazer o velório. Rezou uma ave Maria e um Pai Nosso, mas foi só dizer amém e o morto abriu o olho, era a Morte disfarçada que lhe armara uma cilada. O homem ficou feliz por rever sua  comadre e, sem mais nenhuma jogada, deixou esta vida e foi com a Morte ter morada.

FIM

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